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A Imagem e o Som - Alguns Conceitos do Filme
"Central do Brasil" começa na maior estação de trens do Rio de Janeiro para, num segundo movimento, ganhar a estrada em direção ao nordeste - uma viajem iniciática que se desloca pouco a pouco para o centro do país.
A primeira parte do filme, urbana, foi pensada para transmitir uma sensação de claustrofobia. Os rostos dos depoimentos são vistos em tele. Atrás deles o fluxo de pessoas na Central é contínuo, desumanizado, artérias da estação. As locações exteriores (prédio e casa de Dora, de Irene e de Yolanda) são uma extensão deste mesmo universo, dando uma sensação de "huis clos" ao início do filme. É como se não houvesse possibilidade para Dora de escapar deste círculo vicioso, ou como se Josué não pudesse sobreviver a ele. Rimas visuais (vagão de trem/corredor de prédio de Dora e exterior de trem/prédio de Yolanda) reforçam esta impressão. Não há horizonte neste mundo, não há céu, apenas a presença constante do concreto.
Um certo monocromatismo (declinação de tons ocres, beges, cinzas ou marrons) marca esta parte de "Central do Brasil". À medida que o filme toma a estrada, as lentes se tornam paulatinamente mais abertas, a imagem respira, ganha horizonte e novas cores. É como se uma nova geografia invadisse o mundo até então monocromático da Central. A transição entre um universo e outro é ajudada pelos tons ocres da terra seca do Nordeste. Graças a esta escolha de lentes e a invasão de novas cores, tenta-se dar a impressão de que Dora passa a olhar para o outro. Confrontada com o desconhecido, Dora não detém mais o poder sobre o destino das pessoas (mandar ou não as cartas). Ela passa a ser pouco a pouco transformada por este novo mundo e pelos personagens que encontra no caminho. Josué também começa a descobrir um outro universo. Para ele, a jornada é ainda mais emblemática; é o retorno à terra que não conheceu, o retorno a uma êtaca imaginada e desconhecida para ele.
No final do filme, na Vila do João, retorna a sensação de claustrofobia trazida pela arquitetura desumana dos projetos BNH que assolam o país, tentando mascarar a favelização crescente do Brasil. É como se tivesse voltado o universo massificado do início do filme. Então, porquê Dora deixa Josué por lá? Porquê o afeto, o reencontro com os irmãos é mais forte do que o ambiente desindividualizado da Vila do João.
O som, por outro lado, acompanha o mesmo raciocínio da imagem. Da cacofonia da Central e dos barulhos da cidade que invadem constantemente os ambientes de Dora, Irene e Yolanda, passa-se lentamente para um processo em que os sons se tornam cada vez mais individualizados e rarefeitos, à medida que entramos país adentro.
Em outras palavras, os sons se tornam mais discerníveis à medida que Josué se aproxima de sua família e recupera a identidade perdida, ou à medida que Dora se ressensibiliza.
Filme clip - 30"
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centraldobrasil@videofilmes.com.br
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