Dora é uma camelô de sessenta e poucos anos que luta para sobreviver no Brasil do "real". O mau humor imanente, os cabelos despenteados e as roupas que usa, desleixadas, quase masculinas, tornam claro que ela não se preocupa em mostrar-se atraente para ninguém.

Dora optou pela malandragem como forma de sobrevivência e não se arrepende disso. Não tem uma visão moralista do mundo. Para Dora, as coisas são o que são, e ponto final.

Dora divide seu dia entre a mesinha onde escreve as cartas e o confinamento do seu apartamentinho no subœrbio. Fora as centenas de clientes que passam diariamente por ela na Central, a única pessoa com quem ela se comunica é Irene, vizinha e companheira de longa data.

O encontro com Josué representa para Dora a possibilidade de redenção através da descoberta do afeto e o rompimento da sua existência viciada e minúscula.

Irene é o oposto de Dora. Enquanto Dora não se preocupa mais com os códigos morais e éticos, invertendo-os, Irene consegue discernir o certo do errado e acha que toda luta pela sobrevivência tem limites. Irene é basicamente uma otimista, não tem o cinismo de Dora. Alegre e comunicativa, Irene ainda acredita em algo, enquanto Dora não acredita em mais nada.

Aos 9 anos, Josué é um menino introvertido e precoce. A ausência do pai deu a ele a obrigação de maturar antes da hora e de desenvolver um instinto de proteção em relação à mãe.

A precocidade não elimina, no entanto, a insegurança. O acidente com a mãe devolve-o por um instante à sua própria idade. Perplexo, Josué perde a capacidade de reagir. Só o instinto de sobrevivência e o desejo de conhecer o pai permitem que ele saia do seu estado de catatonia.

Apesar de figura "oficial" na Central do Brasil, Pedrão é o canal da marginalidade. Em troca do ponto e da "segurança" ele cobra uma contribuição regular de cada camelô. Ele é temido apesar do seu jeito bonachão e populista. Ele é o xerife do local, criando e impondo as leis e os códigos da comunidade que ele governa.

Depois que abandonou o Nordeste, Ana tratou apenas de sobre-viver e educar da me-lhor forma possível o seu filho único.

Ana e Josué não se encaixam imediatamente no universo da Central. Como tantos outros que migraram, não pertencem mais a lugar nenhum.

Assim como Dora, César é basicamente um solitário que chega aos sessenta anos com uma vida passada em branco. Evangelista, César desconhece o mundo fora da estrada.

Por trás da fala mansa e dos modos gentis e cândidos, há a inquietação de um caminhoneiro de meia idade que ainda desconhece os caminhos da própria sexualidade e afetividade.

Isaías tem vinte anos e é extrovertido e vital. Popular no lugar onde mora, passa o dia trabalhando na rua. Está em paz com o seu passado. Tem apenas saudades do pai. Como Josué, sonha com a reunificação da sua família.

Moisés é introvertido e solitário. Passa a maior parte do tempo trabalhando na marcenaria. Como Josué, tem um temperamento obsessivo. Guarda rancores do passado, em especial do pai.

Yolanda, a princípio, não tem tipo marginal. Sua aparência e modo de vestir sugerem mais tratar-se de uma mulher de classe média. Fundamentalmente impenetrável, a sua fala é descontínua e seus olhos custam a se fixar num ponto.

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