De Terra Estrangeira à Central do Brasil - Walter Salles

Poucos países sofreram tantas mudanças nos últimos trinta anos quanto o Brasil. Uma industrialização tardia criou uma urbanização caótica. A ausência de reforma agrária, as secas sucessivas e as falsas promessas do milagre econômico dos anos 70 intensificaram a migração interna no eixo norte-sul.

A crise estrutural se aprofunda no início dos anos 90. Com a derrocada do modelo globalizante do (des) governo Collor, o Brasil se torna pela primeira vez em 500 anos um país de emigração. Vive-se então uma terrível crise de auto-estima nacional, tão bem comentada por Contardo Calligaris em "Alô Brasil". No início dos anos 90, uma geração em crise, abandonada num país também incerto de sua identidade, procura uma solução no exílio. Este é o tema de "Terra Estrangeira", co-dirigido por Daniela Thomas.

Vários anos se passaram. Estamos próximos de um novo século. Sabemos que não existe mais a ilusão do milagre que resolveria, de um golpe só, os problemas estruturais brasileiros. Estamos confrontados a nós mesmos, ao país real (para usar o termo cunhado pelo músico Antônio da Nobrega), tão distante do país do real, aquele das estatísticas oficiais, que procura mimetizar o modelo neo-liberal e vender, mais uma vez, a ilusão primeiro-mundista. Ao contrário do Brasil da indiferença e da impunidade, o filme parte à procura de um outro país. Um país onde um certo humanismo, o afeto e a inocência talvez ainda sejam possíveis - a frátria.

A história de "Central do Brasil" é simples. Um garoto de nove anos, introspectivo, endurecido pela vida mas digno, parte à procura do pai que nunca conheceu. A viagem de Josué em direção ao seu passado inverte o eixo de migração norte-sul e permite que o menino redefina a sua própria estória. Ele é acompanhado na sua busca por uma velha mulher que se tornou insensível, cínica, mas que também busca a segunda chance que a libertará de sua existência mesquinha.

Uma pequeníssima odisséia: um garoto em busca do pai, uma mulher à procura dos seus sentimentos, um país à procura de suas raìzes. Todos conhecem o significado da palavra perda, mas não abdicaram do direito de resistir, de mudar o curso das coisas.

Fernanda Montenegro

Estas notas não são de quem "viu" o filme "Central do Brasil". São notas de quem "fez" o filme. Visão de dentro, integrada, cumpliciada. E vigorosamente em paz com a vida pela chance de ter participado de uma produção artisticamente tão inspirada, arrebatadora, honesta, incorporada ao que de melhor o cinema brasileiro pode oferecer à cinematografia contemporânea. Às favas a modéstia!

O que se vê na tela é o tocante resultado deste excelente roteiro aqui publicado.

Filmar esta bela história foi um ato gozoso e doloroso, obstinado, orgânico e absolutamente surpreendente na sua coragem e despudor de falar ao coração e só ao coração.

Longa, vitoriosa vida a esta central, que é este renascer, conjunto, do cinema no Brasil.

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